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Telégrafo

Haralan Popov foi um pastor pentecostal preso e torturado na Bulgária entre 1948 e 1961, cuja trajetória pessoal ilustra uma tragédia política mais ampla: a perseguição aos religiosos nos países comunistas durante a Guerra Fria.

Popov se converteu ao cristianismo no conturbado período da Grande Depressão. Sua Bulgária natal era um país jovem: tornou-se independente do Império Otomano em 1878, após uma série de acordos e conflitos diplomáticos que envolveram as grandes potências – em particular a Rússia – e misturaram o apoio aos cristãos locais diante de massacres cometidos pelas tropas do sultão com projetos expansionistas do poderio russo nos Bálcãs. A história búlgara foi marcada por disputas armadas com os vizinhos pela definição de suas fronteiras e tensões étnicas e religiosas. Na Segunda Guerra Mundial, a Bulgária foi aliada da Alemanha nazista, e ao fim do conflito foi ocupada pela União Soviética.

Os pactos políticos negociados em meio ao confronto, como a Conferência de Ialta, davam aos soviéticos uma área de influência na Europa Oriental, que passou a ser considerada como o cinturão de segurança do país – um bolsão para prevenir ataques devastadores como os que a União Soviética, e a Rússia, antes dela, haviam sofrido de conquistadores como Hitler, Guilherme II e Napoleão. A princípio, as potências ocidentais acreditavam que essa zona seria governada por coalizões de partidos nos quais os comunistas teriam a proeminência, mas não a exclusividade. Isso ocorreu durante um breve período, entre 1945-8, quando tais expectativas foram definitivamente abandonadas diante de uma série de golpes arquitetados pelos soviéticos. 
Nas palavras de Stálin: “Essa guerra não é como ocorria no passado: quem ocupa um território impõe sobre ele o sistema social da força de ocupação... até onde o seu Exército chegar.” De fato, a guinada autoritária na Europa Oriental ocorreu simultaneamente à expulsão dos comunistas dos governos de coalizão na França e na Itália – países onde haviam sido fundamentais na resistência ao nazismo.

Os governos comunistas temiam que as igrejas organizadas constituíssem redes sociais e políticas autônomas com relação ao Estado. A fé religiosa era com frequência identificada com o apoio às sociedades autoritárias que existiam na Europa Oriental antes da Segunda Guerra Mundial e vista como um obstáculo ao programa de modernização secular que os marxistas queriam implementar. O poeta polonês Czeslaw Milosz, Nobel de Literatura: “Nenhum desses jovens acreditava mais na democracia. A maioria dos países no Leste europeu havia sido semiditatorial antes da guerra; o sistema parlamentar parecia pertencer a uma era morta... Era um mundo de declínio e queda. Os liberais da geração mais velha, pronunciando frases pré-fabricadas do século 19... eram restos fossilizados.” A religião não foi proibida – o custo político era demasiado alto – mas sofreu uma série de restrições.

Parte da estratégia da União Soviética e seus aliados locais para impor regimes comunistas foi organizar julgamentos-espetáculos nos quais grupos da oposição fossem condenados de forma espalhafatosa, para desencorajar a resistência e fomentar a ideologia dos novos governos. Na Hungria, o cardeal Jozsef Mindszenty recebeu sentença de prisão perpétua. Na Tchecoslováquia, o arcebispo Josef Beran foi condenado a 14 anos de detenção. Milhares de padres e freiras tiveram destino semelhante. Os protestantes na Bulgária, Romênia e Polônia eram alvos fáceis – minorias religiosas em países onde os cristãos eram majoritariamente ortodoxos ou católicos. Popov foi preso junto com outros 14 pastores e sob tortura se declararam culpados de espionagem a favor dos Estados Unidos e de outras grandes potências.

Em outros países, os comunistas se viram forçados a negociar acordos de convivência com os cristãos. Na Polônia, a Igreja Católica era um poderoso símbolo de identidade nacional e conseguiu preservar certo grau de independência. Eventualmente, dela sairia o cardeal Karol Wojtyla, que como o papa João Paulo II desempenhou papel de liderança no colapso dos regimes marxistas no leste europeu. Na Alemanha Oriental, as igrejas protestantes sobreviveram em complicado arranjo com as autoridades comunistas, toleradas e pressionadas, mas tiveram importância nos anos finais dos protestos que levaram à queda do muro de Berlim.

A perseguição religiosa sob o comunismo não se limitou aos cristãos e também afetou de maneira significativa judeus, muçulmanos e budistas, entre outros. Surtos de antissemitismo foram comuns na União Soviética, Polônia e Romênia. Movimentos islâmicos foram importantes na rejeição ao comunismo na Ásia Central e no Afeganistão, e o Dalai Lama personifica a dedicação dos budistas tibetanos a manter sua liberdade de consciência diante do Estado chinês.

Popov foi libertado em 1961, mesmo ano em que foi fundada a Anistia Internacional. Esse movimento de direitos humanos e outras organizações semelhantes têm tido desde então um papel importante em campanhas globais na defesa de pessoas encarceradas simplesmente porque sua fé incomoda os ocupantes do poder político. Na década de 1970 houve pressões externas crescentes sobre a União Soviética para que deixasse seus judeus emigrarem para Israel. Essas mobilizações acabaram dando origem ao célebre artigo sobre liberdade religiosa nos Acordos de Helsinki (1975), pelos quais os blocos comunista e capitalista tentavam chegar a entendimentos com relação às fronteiras do pós-Segunda Guerra Mundial e estabelecer relações pacíficas. Para monitorar o acordo foi fundada a Helsinki Watch – hoje Human Rights Watch.

O fim da Guerra Fria não levou ao encerramento de perseguições religiosas. Os últimos 20 anos foram de conflitos violentos nos quais a religião e outros aspectos culturais tiveram enorme peso, como nas guerras civis do Afeganistão, Argélia, Iugoslávia, Síria, Sudão e em diversos outros embates sectários na Indonésia, Irã, Iraque, Filipinas, Nigéria, Paquistão, Rússia, e, evidentemente, em todas as tragédias que envolvem os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, as guerras que sucederam a eles e o aumento da intolerância e da xenofobia na Europa e em outras regiões. O título da edição brasileira do livro de Popov e da peça de teatro da Cia de Artes Mc.16, “Torturado por sua Fé”, poderia ser a manchete de um jornal com as notícias sobre muitos dos confrontos contemporâneos. Eles envolvem cristãos, muçulmanos, judeus, hindus, budistas e outros credos. Às vezes uns contra os outros, às vezes em disputas internas entre as várias correntes que formam sua fé.

O Brasil tem se tornado um país cada vez mais plural e diversificado do ponto de vista religioso e tem conseguido evitar os conflitos violentos que ocorrem em várias partes do mundo, ainda que não esteja isento de manifestações de intolerância e de discriminação. Conhecer as histórias de perseguição da era dos totalitarismos, como a que viveu Popov, é um lembrete fundamental de como é preciosa a liberdade de consciência da qual os brasileiros hoje desfrutamos.

 

Por Maurício Santoro - Cientista político, ex-assessor de direitos humanos da Anistia Internacional Brasil e professor universitário.

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